Pular para o conteúdo principal

Dr. Marcos Kern – Psiquiatria em Arapongas – PR

O autodiagnóstico nas redes sociais virou parte do cotidiano de milhões de pessoas. Você está rolando o feed, sem pensar em nada específico, quando um vídeo de trinta segundos lista “7 sinais de que você pode ter TDAH”. Alguns sinais parecem familiares. Outros, nem tanto. Mas o suficiente já basta: “isso sou eu”.

Essa cena se repete milhões de vezes por dia, em plataformas como TikTok e Instagram. O interesse por saúde mental crescendo é, em muitos sentidos, positivo. Mais gente fala abertamente sobre ansiedade, depressão e outras condições que antes eram cercadas de silêncio. O problema começa quando esse interesse vira autodiagnóstico nas redes sociais, feito por conta própria, com base em conteúdos que nem sempre têm compromisso com a precisão.

Quando o autodiagnóstico nas redes sociais deve virar uma consulta de verdade?

Se identificar com um vídeo não é, por si só, um problema. Muitas pessoas só chegaram a buscar ajuda profissional depois de reconhecerem um padrão em algo que viram na internet. O problema começa quando essa identificação para por aí, e vira uma certeza sem confirmação.

O Dr. Marcos Augusto Kern, CRM-PR 45460, atua em Arapongas-PR com formação em psiquiatria. Ele realiza avaliação diagnóstica de adolescentes e adultos que chegam ao consultório após se identificarem com conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais, investigando com cuidado se aquela suspeita se confirma, se aponta para outro diagnóstico, ou se reflete características que não configuram, de fato, um transtorno.

Foto de apresentação
O diagnóstico feito nas redes sociais, na maioria das vezes, é falso. O Dr. Marcos oferece ajuda profissional para quem se identifica, no entanto.

Se um vídeo te fez perceber um padrão de sofrimento real na sua vida, isso já tem valor. O próximo passo, no entanto, precisa ser uma avaliação clínica, e não a aceitação do rótulo como resposta final.

Por que o autodiagnóstico nas redes sociais virou um fenômeno tão grande?

O cenário atual favorece esse tipo de comportamento. O brasileiro está entre os que mais passam tempo conectado no mundo, com médias diárias que ultrapassam nove horas de uso de internet. Boa parte desse tempo é passada em redes sociais baseadas em vídeos curtos.

Nesse ambiente, conteúdos sobre saúde mental viralizam com facilidade. Hashtags relacionadas ao tema já somam bilhões de visualizações, e alguns transtornos se tornaram particularmente populares nesse tipo de conteúdo, como o TDAH, o transtorno do espectro autista e o transtorno de personalidade borderline.

Esse volume de conteúdo, por si só, não é o problema. A questão está na qualidade do que é consumido, e é aí que os dados começam a preocupar.

Os vídeos sobre saúde mental nas redes sociais são confiáveis?

Nem sempre, e as pesquisas recentes sobre o tema são bastante claras nesse ponto. Entre as plataformas analisadas, o TikTok se destaca, negativamente, como campeão de desinformação sobre saúde mental.

Um levantamento amplo, que reuniu diversos estudos sobre o tema, encontrou uma prevalência média de desinformação de cerca de 34,56% no conteúdo do TikTok relacionado a saúde mental e neurodivergência. Em análises específicas, esse número foi ainda mais alto: conteúdos sobre TDAH apresentaram 52% de informações incorretas, e publicações sobre autismo chegaram a 41%. Alguns estudos pontuais chegaram a identificar até 56% de desinformação em determinados recortes analisados.

Outro dado relevante: o público tende a se engajar muito mais com vídeos de relatos pessoais e explicações simplificadas de influenciadores do que com conteúdos produzidos por profissionais de saúde. Isso cria um ambiente em que a informação mais compartilhada nem sempre é a mais precisa, e sim a mais emocionalmente envolvente ou esteticamente atraente.

Vale destacar que essa questão não é exclusiva de uma única plataforma, embora o TikTok apareça consistentemente à frente nos levantamentos sobre o tema. O formato de vídeo curto, por natureza, favorece simplificações que dificilmente comportam a complexidade real de um diagnóstico psiquiátrico.

Como as redes sociais afetam a autoimagem, alimentando o autodiagnóstico?

Para entender por que esse fenômeno cresceu tanto, vale olhar para um ponto anterior ao próprio conteúdo sobre saúde mental: o efeito das redes sociais na forma como as pessoas se enxergam.

As redes sociais são, por natureza, um ambiente de comparação constante. Vidas editadas, conquistas destacadas e narrativas pessoais cuidadosamente construídas moldam uma sensação frequente de estar “atrás” ou “diferente” em relação aos outros. Esse pano de fundo já fragiliza a autoimagem de muita gente, antes mesmo de qualquer vídeo sobre sintomas psiquiátricos entrar em cena.

Nesse contexto, encontrar um rótulo que explique dificuldades pessoais, como desorganização, dificuldade de concentração ou desconforto social, pode funcionar como um alívio imediato. Ter um nome para o próprio sofrimento traz sensação de pertencimento e de compreensão, especialmente em uma fase da vida marcada pela construção de identidade, como costuma ser a adolescência e o início da vida adulta.

O problema é que essa busca por autocompreensão, legítima em si mesma, acaba sendo respondida por conteúdos rasos, que oferecem respostas rápidas demais para perguntas complexas sobre quem a pessoa é. A autoimagem, nesse processo, passa a se organizar em torno de rótulos apressados, em vez de um autoconhecimento construído com mais tempo e profundidade.

Existe ainda um efeito colateral pouco discutido: quando a autoimagem se apoia fortemente em um rótulo diagnóstico não confirmado, questionar esse rótulo, mesmo que de forma cuidadosa e profissional, pode ser sentido como um ataque à própria identidade, e não apenas como uma correção de rota clínica. Isso torna o processo de avaliação, em alguns casos, emocionalmente mais delicado do que costumava ser.

Por que uma lista de sintomas parece “se encaixar” em quase qualquer pessoa?

Esse é um mecanismo psicológico conhecido, e ajuda a explicar por que tanta gente se reconhece em vídeos sobre transtornos completamente diferentes entre si.

Muitos sintomas psiquiátricos são inespecíficos. Dificuldade de concentração, oscilações de humor, ansiedade em situações sociais e desorganização aparecem em diversos transtornos, e também, em menor intensidade, na vida de pessoas sem nenhum diagnóstico. Quando esses sintomas são listados fora de contexto, sem critérios de intensidade, frequência ou prejuízo funcional, praticamente qualquer pessoa consegue se identificar com pelo menos parte deles.

Some a isso o viés de confirmação: uma vez que a pessoa começa a considerar um diagnóstico específico, ela passa a notar com mais atenção tudo que confirma essa hipótese, e a ignorar o que a contradiz. Os algoritmos de recomendação potencializam esse efeito, oferecendo cada vez mais conteúdo semelhante, o que cria uma falsa sensação de certeza, construída dentro de uma bolha de conteúdo repetitivo.

Quais os riscos reais do autodiagnóstico nas redes sociais?

Os riscos vão além de “só rotular errado”. Eles têm consequências práticas relevantes.

O primeiro é o atraso no diagnóstico correto. Uma pessoa convencida de ter um transtorno específico pode deixar de investigar outras possibilidades, incluindo condições que exigem tratamento com mais urgência.

O segundo é a busca por tratamentos inadequados, incluindo automedicação ou estratégias voltadas para um transtorno que a pessoa não tem de fato, o que raramente traz o alívio esperado e ainda pode trazer prejuízos próprios.

O terceiro é o aumento da ansiedade, gerado pela preocupação constante com sintomas interpretados fora de contexto. Psiquiatras têm relatado um número crescente de pacientes que chegam ao consultório já com um “diagnóstico fechado” baseado em vídeos, o que exige um trabalho adicional de desconstrução dessa crença antes mesmo de iniciar a avaliação real.

O quarto risco, menos falado, mas igualmente importante, é a banalização do sofrimento de quem tem o diagnóstico verdadeiro. Quando qualquer dificuldade cotidiana é chamada pelo nome de um transtorno sério, a experiência de quem convive de fato com aquela condição, muitas vezes com prejuízos profundos, acaba sendo diluída e menos levada a sério pela sociedade.

Existe ainda um quinto ponto, mais sutil: o desgaste da relação entre paciente e profissional. Psiquiatras relatam a necessidade de dedicar parte do tempo de consulta a desconstruir crenças equivocadas antes de sequer iniciar a avaliação propriamente dita, o que reduz o tempo disponível para o cuidado em si.

Por que alguns criadores de conteúdo “romantizam” transtornos mentais?

Parte da resposta está na própria lógica de funcionamento das plataformas. Conteúdos emocionais, simplificados e fáceis de assistir até o fim geram mais engajamento do que explicações longas e criteriosas, o que naturalmente favorece esse tipo de vídeo nos algoritmos de recomendação.

Existe também um componente de identidade. Para algumas pessoas, especialmente jovens em fase de formação de identidade, associar-se publicamente a um transtorno passa a fazer parte de como elas se apresentam ao mundo, dentro de comunidades online que se formam em torno desses rótulos.

Isso não significa que exista sempre má-fé por trás desses conteúdos. Muitas vezes, quem produz genuinamente acredita estar ajudando, compartilhando sua própria experiência. O problema é que experiência pessoal, por mais sincera que seja, não substitui o rigor de um processo diagnóstico clínico.

As redes sociais têm algum papel positivo nesse tema?

Sim, e seria um erro tratá-las apenas como vilãs nessa história. Conteúdos sobre saúde mental ajudaram a reduzir bastante o estigma em torno de buscar ajuda psicológica e psiquiátrica, um avanço real em relação a poucos anos atrás.

Para muitas pessoas, um vídeo foi o primeiro contato com a possibilidade de que aquilo que sentiam tinha nome, e tinha tratamento. Isso pode, sim, funcionar como ponto de partida importante para buscar avaliação profissional.

O problema não está em consumir esse tipo de conteúdo, mas em tratá-lo como ponto final, em vez de ponto de partida.

Como diferenciar conteúdo confiável de desinformação?

Alguns sinais ajudam a filtrar melhor o que se consome sobre saúde mental nas redes:

  • Verificar se quem publica tem formação reconhecida na área, e não apenas experiência pessoal ou seguidores.
  • Desconfiar de listas fechadas de sintomas, apresentadas como se fossem suficientes para um diagnóstico por si só.
  • Notar a ausência de menção a diagnóstico diferencial, ou seja, à explicação de que aqueles sintomas também podem indicar outras condições.
  • Ficar atento a promessas de certeza absoluta, como “se você tem esses 5 sinais, você definitivamente tem esse transtorno”.
  • Considerar se o conteúdo menciona a necessidade de avaliação profissional, ou se sugere que o próprio vídeo já é suficiente como resposta.
Autodiagnóstico nas redes sociais ou pelo Tik Tok
O Tik Tok tem sem sido descrito como “campeão” de desinformação pelas redes sociais.

Nenhum desses cuidados substitui a avaliação clínica, mas ajudam a consumir esse tipo de conteúdo com mais senso crítico.

Por que só um profissional pode fazer o diagnóstico?

O diagnóstico psiquiátrico é um processo, não um momento único. Ele envolve entender a história de vida da pessoa, a evolução dos sintomas ao longo do tempo, o contexto em que eles aparecem, e o quanto realmente atrapalham o funcionamento diário.

Envolve também o diagnóstico diferencial, ou seja, a exclusão cuidadosa de outras condições que podem se parecer, à primeira vista, com o quadro suspeitado. Essa etapa exige conhecimento técnico específico, e é justamente o que nenhuma lista de sintomas de rede social consegue reproduzir.

Por fim, o diagnóstico depende de uma relação de confiança construída ao longo de mais de uma consulta, na qual detalhes que a própria pessoa talvez nem considerasse relevantes podem fazer toda a diferença na conclusão final.

E se o médico discordar do que eu vi na internet?

Essa é uma situação comum, e vale se preparar emocionalmente para ela. Depois de meses, às vezes anos, convivendo com a ideia de um diagnóstico específico, ouvir do profissional que a avaliação aponta para outra direção pode gerar frustração, ou até a sensação de não ter sido “levado a sério”.

Vale lembrar que um bom profissional não descarta a sua queixa por descartar. Ele investiga, explica seu raciocínio, e costuma nomear aquilo que você sente, mesmo que sob outro rótulo diagnóstico ou dentro de outro entendimento clínico. Discordar de uma hipótese formada na internet não é o mesmo que dizer que seu sofrimento não existe ou não importa.

Se você sentir que não foi de fato ouvido durante uma avaliação, buscar uma segunda opinião é um direito legítimo, e não um sinal de desconfiança exagerada. O que não costuma ajudar é descartar a opinião profissional simplesmente por ela contrariar uma expectativa formada a partir de conteúdo online, sem dar à avaliação clínica a chance de se desenvolver por completo.

Pais e professores: como lidar com o autodiagnóstico de adolescentes?

Esse fenômeno tem gerado desafios específicos para pais e educadores, que se veem diante de adolescentes convictos de terem determinado transtorno, muitas vezes com boa dose de conhecimento técnico decorado de vídeos e postagens.

Descartar a preocupação do adolescente de forma abrupta, com frases como “isso é modismo” ou “você só quer chamar atenção”, tende a afastar ainda mais o jovem de uma conversa aberta sobre o assunto. Por outro lado, validar automaticamente qualquer autodiagnóstico, sem incentivar uma avaliação real, também não é o caminho mais adequado.

O equilíbrio costuma estar em acolher a preocupação como legítima, sem confirmar ou negar o diagnóstico específico de antemão, e propor a avaliação profissional como próximo passo natural da conversa, e não como um questionamento da capacidade do adolescente de se conhecer ou de perceber a própria dor.

Quando procurar um psiquiatra após um autodiagnóstico nas redes sociais?

Vale buscar avaliação sempre que um conteúdo sobre saúde mental despertar em você uma identificação forte, ou uma preocupação persistente sobre algo que pode estar acontecendo com você ou com alguém próximo.

Você não precisa chegar ao consultório com um diagnóstico pronto, nem se sentir errado por ter formado uma hipótese a partir de algo que viu online. Esse é, muitas vezes, só o primeiro passo de um caminho que se completa com uma avaliação cuidadosa e individualizada.


Dr. Marcos Augusto Kern — CRM-PR 45460


Leia também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *