Pular para o conteúdo principal

Dr. Marcos Kern – Psiquiatria em Arapongas – PR

Nos últimos anos, um jogo de cassino virtual com um tigre e frutas coloridas virou parte do vocabulário popular brasileiro. O “jogo do tigrinho”, nome popular do Fortune Tiger, apareceu em vídeos de influenciadores, conversas de família e até investigações policiais, muitas vezes associado a promessas de ganhos fáceis e rápidos.

Mas o tigrinho é só a ponta visível de um fenômeno bem maior: o crescimento acelerado das apostas online no Brasil, e o aumento proporcional de pessoas que desenvolvem um transtorno real relacionado a esse comportamento. Este texto vai além do produto específico e explica o que é, de fato, o transtorno do jogo, por que ele acontece, e o que pode ser feito a respeito, tanto por quem já reconhece o problema em si mesmo quanto por quem observa isso em alguém próximo.

Qual médico trata o jogo patológico?

O psiquiatra realiza a avaliação diagnóstica do transtorno do jogo e trata as comorbidades frequentemente associadas, como depressão, ansiedade e uso problemático de álcool ou outras substâncias.

O Dr. Marcos Augusto Kern, CRM-PR 45460, atua em Arapongas-PR com formação em psiquiatria. Ele realiza avaliação de adolescentes e adultos com dificuldade de controlar o comportamento de apostar, investigando o impacto financeiro, familiar e emocional envolvido, e conduzindo o tratamento em conjunto com abordagens psicoterapêuticas.

Foto de apresentação
O Dr. Marcos oferece ajuda para pacientes com jogo patológico.

Se você, ou alguém da sua família, tem apostado além do que planejava, ou sentido dificuldade real em parar, vale buscar essa avaliação. Reconhecer o problema não é sinal de fraqueza, é o primeiro passo para reverter uma situação que tende a se agravar sem intervenção.

O “jogo do tigrinho” é legal no Brasil?

Essa é uma das maiores confusões em torno do tema, e vale esclarecer com cuidado.

O Fortune Tiger, especificamente, é considerado ilegal no Brasil. O sistema é hospedado fora do país, a empresa desenvolvedora não possui registro nacional, e o jogo se enquadra na categoria de jogo de azar, modalidade que segue proibida fora das regras específicas de exceção previstas em lei.

Isso é diferente das casas de apostas esportivas e de cassino online que operam de forma regulamentada no Brasil desde a Lei nº 14.790/2023, mediante autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Essas plataformas licenciadas seguem regras específicas, incluindo restrição a maiores de 18 anos e obrigatoriedade de oferecer ferramentas de jogo responsável.

Na prática, essa distinção legal pouco muda o quadro clínico. Seja em uma plataforma ilegal ou regulamentada, o mecanismo por trás do desenvolvimento do transtorno do jogo é o mesmo, e o risco à saúde mental não desaparece só porque a operação está dentro da lei.

Por que as apostas online cresceram tanto no Brasil nos últimos anos?

Os números ajudam a dimensionar a velocidade dessa mudança. O volume de dinheiro destinado pelos brasileiros às apostas online, popularmente chamadas de “bets”, cresceu mais de 500% em apenas três anos, saindo de menos de 5 bilhões de reais mensais em 2023 para cerca de 30 bilhões de reais mensais no início de 2026.

Uma pesquisa nacional sobre uso de internet identificou que 19% dos usuários afirmaram ter feito algum tipo de aposta nos três meses anteriores à entrevista. Esse crescimento acompanha a regulamentação do setor, o aumento da publicidade em redes sociais e televisão, e a divulgação constante por influenciadores digitais, muitas vezes mostrando ganhos exagerados ou contas de demonstração como se fossem resultados reais.

Esse ambiente de exposição constante contribui diretamente para o aumento de casos do transtorno do jogo, já que a facilidade de acesso é um dos fatores de risco mais bem estabelecidos para o desenvolvimento da condição.

O que é o transtorno do jogo (jogo patológico)?

O transtorno do jogo, também chamado de jogo patológico ou ludopatia, é reconhecido como um transtorno psiquiátrico pelos principais manuais diagnósticos, incluindo o DSM-5 e a Classificação Internacional de Doenças em sua versão mais recente.

Diferente do que a cultura popular sugere, não se trata de falta de força de vontade ou de caráter fraco. O transtorno do jogo está classificado junto aos transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos, justamente porque compartilha mecanismos neurobiológicos semelhantes aos observados em outras dependências, especialmente relacionados ao sistema de recompensa do cérebro.

A diferença central entre um jogador recreativo e alguém com o transtorno está na perda de controle. O jogador recreativo consegue parar quando decide. Quem tem o transtorno do jogo continua apostando mesmo reconhecendo as consequências negativas, e mesmo desejando genuinamente parar.

Quais são os sinais de alerta do transtorno do jogo?

O diagnóstico considera nove critérios estabelecidos pelo DSM-5. A presença de quatro ou mais deles, ao longo de um período de doze meses, já configura o diagnóstico. Entre os principais sinais, estão:

  • Preocupação frequente com o jogo, incluindo planejar a próxima aposta ou pensar em formas de conseguir dinheiro para jogar.
  • Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma excitação de antes.
  • Tentativas repetidas e malsucedidas de reduzir ou parar de jogar.
  • Irritabilidade ou inquietação ao tentar diminuir ou interromper o comportamento.
  • Uso do jogo como forma de fugir de problemas ou aliviar estados emocionais negativos, como tristeza ou ansiedade.
  • Tentar recuperar o dinheiro perdido apostando ainda mais, um padrão conhecido como “perseguir as perdas”.
  • Mentir para familiares ou profissionais de saúde sobre a extensão do envolvimento com o jogo.
  • Colocar em risco ou perder relacionamentos, emprego ou oportunidades importantes por causa do jogo.
  • Depender de outras pessoas para resolver problemas financeiros causados pelo jogo.

Conforme o número de critérios presentes, o quadro é classificado em leve, moderado ou grave, o que ajuda a direcionar a intensidade do tratamento necessário.

Por que jogos como o “tigrinho” são projetados para viciar?

Jogos de aposta digital, incluindo caça-níqueis online como o Fortune Tiger, são desenvolvidos com mecânicas especificamente estudadas para maximizar o engajamento.

Rodadas muito curtas permitem que o resultado seja conhecido em segundos, possibilitando um número enorme de tentativas em pouco tempo. O sistema de recompensa variável, no qual o jogador nunca sabe exatamente quando vai ganhar, é reconhecidamente um dos padrões mais eficazes para manter o comportamento repetitivo, o mesmo princípio usado em caça-níqueis físicos há décadas.

Outro mecanismo importante é o chamado “quase ganhei”, quando o resultado quase forma uma combinação vencedora, mas não completa. Esse tipo de resultado ativa áreas cerebrais ligadas à recompensa de forma semelhante a uma vitória real, mesmo sendo, na prática, uma perda, o que estimula a pessoa a tentar novamente.

Cores vibrantes, efeitos sonoros e animações de comemoração completam esse conjunto de estímulos, tornando a experiência de apostar sensorialmente envolvente, independentemente do resultado financeiro real obtido ao longo do tempo. Entender esses mecanismos não é uma forma de justificar o comportamento de apostar, mas de reconhecer que o jogo foi construído, de forma deliberada, para dificultar o autocontrole, o que retira parte do peso moral que muitas pessoas colocam sobre si mesmas ao tentar entender por que não conseguem simplesmente parar.

O transtorno do jogo está associado a outros problemas de saúde mental?

Sim, e essa associação é bastante consistente na literatura científica. Transtornos de humor, transtornos de ansiedade e dependência de substâncias estão entre as comorbidades mais frequentemente encontradas em pessoas com transtorno do jogo, e sua presença costuma estar associada a quadros mais graves.

Estudos brasileiros indicam que uma parcela relevante da população já apostou ao menos uma vez ao mês em algum momento, com uma fração menor, porém significativa, preenchendo critérios para o transtorno ou para o chamado “jogo-problema” ao longo da vida. Levantamentos mais recentes sugerem que milhões de brasileiros que apostaram no último ano já apresentam algum grau de risco para desenvolver o transtorno.

Jogo do tigrinho e transtorno do jogo
O jogo do tigrinho, mas não só ele, é projetado para que o jogador perca dinheiro. Lembre-se:

Reconhecer essa sobreposição é importante porque, muitas vezes, o jogo funciona como uma forma de automedicação emocional, uma tentativa de aliviar sintomas de ansiedade ou tristeza através da excitação momentânea proporcionada pela aposta.

Quais os impactos do jogo patológico na vida financeira e familiar?

Os impactos vão muito além do dinheiro perdido em si, embora esse já seja, com frequência, considerável.

Dívidas acumuladas, uso de recursos destinados a contas essenciais, empréstimos contraídos para cobrir perdas anteriores e, em casos mais graves, envolvimento em situações ilegais para conseguir dinheiro são consequências documentadas do transtorno em estágio avançado.

No âmbito familiar, é comum o rompimento da confiança, já que mentir sobre o valor das perdas é um dos critérios diagnósticos mais frequentes. Isso gera um ciclo difícil: a pessoa esconde o problema por vergonha, o que atrasa a busca por ajuda, e o problema se agrava enquanto permanece oculto.

Existe risco de suicídio associado ao jogo patológico?

Sim, e esse é um dos aspectos mais graves e menos discutidos abertamente sobre o tema. O desespero financeiro, a vergonha e a sensação de estar preso em um ciclo sem saída, comuns em casos avançados do transtorno do jogo, estão associados a maior risco de sofrimento intenso e pensamentos de morte.

Isso reforça a importância de tratar o transtorno do jogo com a mesma seriedade dedicada a outras condições psiquiátricas graves, e não como um problema apenas financeiro ou moral. Buscar ajuda antes que a situação chegue a um ponto de desespero extremo é fundamental, tanto para quem joga quanto para a família ao redor, que muitas vezes só descobre a extensão real do problema quando ele já atingiu um estágio avançado.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento do jogo patológico?

O diagnóstico é clínico, feito por psiquiatra ou outro profissional de saúde mental habilitado, através de entrevista detalhada sobre o padrão de comportamento, o tempo de duração do problema, e o impacto financeiro, familiar e emocional envolvido.

A terapia cognitivo-comportamental é a abordagem psicoterapêutica com maior evidência científica para o tratamento do transtorno do jogo, trabalhando diretamente os pensamentos distorcidos relacionados ao jogo, como a ilusão de controle sobre resultados aleatórios, e desenvolvendo estratégias para lidar com os gatilhos que levam à recaída.

O acompanhamento psiquiátrico entra para tratar comorbidades associadas, como depressão ou ansiedade, que muitas vezes precisam ser abordadas paralelamente para que o tratamento do jogo tenha sucesso duradouro.

Plataformas regulamentadas de apostas são obrigadas, por lei, a oferecer ferramentas de autoexclusão e limites de depósito. Embora úteis, essas ferramentas funcionam melhor como apoio complementar, e não como substituto do tratamento profissional para quem já desenvolveu o transtorno.

Como ajudar alguém com esse problema?

Familiares de pessoas com transtorno do jogo enfrentam um dilema comum: querer ajudar, sem saber como fazer isso de forma eficaz. Alguns cuidados fazem diferença:

  • Evitar cobrir dívidas de jogo repetidamente, já que isso, embora bem-intencionado, pode reforçar o ciclo do comportamento.
  • Buscar conversar sobre o problema sem julgamento moral, reconhecendo que se trata de um transtorno de saúde, não de uma falha de caráter.
  • Incentivar e apoiar ativamente a busca por tratamento profissional especializado.
  • Buscar apoio psicológico próprio, já que conviver com alguém nessa situação também traz desgaste emocional significativo.

Adolescentes e jovens: um grupo de risco crescente

A exposição precoce a apostas online tem preocupado especialistas e órgãos de proteção à infância e à adolescência. Investigações já identificaram influenciadores mirins divulgando plataformas de apostas para um público de seguidores igualmente jovem, mesmo sendo qualquer modalidade de aposta proibida para menores de 18 anos.

Adolescentes estão em fase de desenvolvimento cerebral ainda associada a maior impulsividade e menor capacidade de avaliar consequências de longo prazo, o que os torna particularmente vulneráveis aos mecanismos de recompensa usados nesses jogos. Normalizar esse tipo de conteúdo desde cedo, mesmo que de forma indireta, através de vídeos e memes compartilhados entre amigos, contribui para reduzir a percepção de risco associada ao comportamento.

Pais e educadores podem ajudar conversando abertamente sobre o tema, sem tratar o assunto como tabu, e ficando atentos a sinais como uso excessivo de aplicativos de apostas, pedidos frequentes de dinheiro sem explicação clara, ou mudanças de comportamento associadas ao uso do celular.

Mitos comuns sobre apostas e o jogo do tigrinho

“Estou devendo uma vitória, já perdi demais.” Essa crença, conhecida como falácia do apostador, ignora que cada rodada em jogos de azar é estatisticamente independente das anteriores. Perdas passadas não aumentam a probabilidade de ganhos futuros.

“Existe um horário ou padrão que ‘paga mais’.” Jogos como o Fortune Tiger funcionam com geradores de números aleatórios, sem qualquer padrão identificável de horário ou sequência que possa ser explorado de forma consistente.

“Se eu parar agora, perco a chance de recuperar o que já gastei.” Esse pensamento, natural em quem já perdeu valores significativos, é justamente o que mantém o ciclo de perseguição das perdas, um dos critérios diagnósticos do próprio transtorno do jogo.

“É só um jogo, não é uma droga de verdade.” Como já vimos, o transtorno do jogo compartilha mecanismos cerebrais semelhantes aos das dependências químicas, e seus impactos financeiros, familiares e emocionais podem ser igualmente graves.

Quando procurar um psiquiatra?

Vale buscar avaliação quando o comportamento de apostar já causou prejuízo financeiro relevante, conflitos familiares, ou quando a pessoa já tentou parar sozinha sem sucesso, mesmo desejando genuinamente interromper o comportamento.

Você não precisa esperar chegar ao limite financeiro ou emocional para buscar ajuda. Quanto antes o problema for reconhecido, menores tendem a ser os danos acumulados ao longo do caminho, tanto para você quanto para as pessoas que dependem financeira e emocionalmente de você.

Este é um tema sensível, dada a associação do jogo patológico com desespero financeiro e risco elevado de sofrimento intenso. Se você ou alguém próximo apresenta pensamentos de morte relacionados a dívidas de jogo, não espere. Procure um psiquiatra para uma avaliação completa e um plano de tratamento individualizado. Em caso de emergência, procure o pronto atendimento mais próximo, o SAMU pelo número 192, ou o Centro de Valorização da Vida pelo número 188.


Dr. Marcos Augusto Kern — CRM-PR 45460


Leia também

Fontes e leitura complementar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *