Pular para o conteúdo principal

Dr. Marcos Kern – Psiquiatria em Arapongas – PR

Poucos medicamentos psiquiátricos geram tanta dúvida, e tanto mito, quanto metilfenidato e lisdexanfetamina. De um lado, são apontados como solução mágica para qualquer dificuldade de concentração, uma espécie de atalho para ter mais foco e produtividade. Do outro, são vistos com desconfiança, como se “dopassem” quem os usa ou transformassem a pessoa em outra completamente diferente.

A realidade fica no meio do caminho. Este texto explica o que são esses medicamentos, como agem, para que servem de verdade, e desfaz alguns dos mitos mais comuns que circulam sobre eles, tanto entre quem já usa quanto entre quem ainda tem receio de considerar o tratamento.

Qual médico prescreve metilfenidato ou lisdexanfetamina?

O psiquiatra é um dos profissionais habilitados para avaliar a necessidade desses medicamentos, geralmente no contexto do diagnóstico de TDAH. A prescrição exige avaliação clínica cuidadosa, já que ambos são medicamentos controlados.

O Dr. Marcos Augusto Kern, CRM-PR 45460, atua em Arapongas-PR com formação em psiquiatria. Ele realiza avaliação diagnóstica de crianças, adolescentes e adultos com suspeita de TDAH, e conduz o acompanhamento do tratamento medicamentoso quando indicado, incluindo ajustes de dose e monitoramento de efeitos colaterais ao longo do tempo.

Foto de apresentação
O Dr. Marcos possui ampla experiência no tratamento destas condições.

Se você suspeita de TDAH em você mesmo ou em um familiar, e tem dúvidas sobre esses medicamentos, uma consulta psiquiátrica é o caminho adequado para essa avaliação, em vez de recorrer a informações soltas, grupos de mensagens ou ao uso sem orientação médica.

O que são metilfenidato e lisdexanfetamina?

Metilfenidato e lisdexanfetamina são as duas principais substâncias usadas no tratamento medicamentoso do TDAH no Brasil. Ambas pertencem à classe dos psicoestimulantes.

O metilfenidato é vendido comercialmente como Ritalina, em suas versões de liberação imediata e prolongada, além de outras marcas com liberação estendida. Seu efeito costuma durar entre 3 e 5 horas na formulação de ação curta, podendo chegar a 8 ou 12 horas nas versões de liberação prolongada.

A lisdexanfetamina é comercializada como Venvanse. Trata-se de um pró-fármaco, ou seja, uma substância inativa que só se torna ativa depois de metabolizada pelo organismo. Essa característica dá a ela um efeito mais gradual e prolongado, geralmente entre 10 e 13 horas, com uma única tomada pela manhã.

Como esses medicamentos agem no cérebro?

Os dois aumentam a disponibilidade de dopamina e noradrenalina em regiões do cérebro ligadas à atenção, ao controle de impulsos e às funções executivas.

O metilfenidato age principalmente bloqueando a recaptação dessas substâncias, ou seja, impede que elas sejam retiradas rapidamente do espaço entre os neurônios, prolongando seu efeito. A lisdexanfetamina, depois de ativada no organismo, libera dextroanfetamina, que também aumenta a liberação e disponibilidade desses neurotransmissores, por um mecanismo parcialmente diferente.

Em pessoas com TDAH, existe uma disfunção real na regulação desses neurotransmissores no córtex pré-frontal, a região responsável pelo planejamento, pela organização do pensamento e pelo controle de impulsos. Os psicoestimulantes ajudam a corrigir esse desequilíbrio, o que explica por que costumam trazer melhora significativa da atenção e do controle de impulsos nesses casos.

Essa explicação ajuda a entender também por que o efeito é tão diferente em quem não tem o transtorno, ponto que será retomado mais adiante neste texto.

Para que servem, de fato, esses medicamentos?

A principal indicação de ambos é o tratamento do TDAH, em crianças a partir de determinada idade, adolescentes e adultos, sempre após avaliação diagnóstica criteriosa.

A lisdexanfetamina também tem indicação aprovada para o transtorno da compulsão alimentar periódica, uma condição caracterizada por episódios recorrentes de ingestão excessiva de comida, associados a sensação de perda de controle.

Fora dessas indicações, o uso desses medicamentos não é recomendado. Eles não são indicados para “melhorar” o desempenho de quem não tem TDAH, tema que retomaremos mais adiante neste texto.

Metilfenidato ou lisdexanfetamina: qual a diferença na prática?

Essa é uma dúvida comum entre famílias e pacientes que já receberam o diagnóstico e estão diante da escolha entre as duas opções.

A principal diferença prática está na duração do efeito e na forma como ele se instala ao longo do dia. O metilfenidato de liberação imediata age rápido, mas por poucas horas, o que pode exigir mais de uma tomada diária. Suas versões de liberação prolongada estendem esse efeito, com menos oscilações ao longo do dia.

A lisdexanfetamina, por ser um pró-fármaco, tem início de ação um pouco mais lento, mas efeito mais estável e prolongado, com uma única tomada pela manhã cobrindo boa parte do dia. Isso costuma facilitar a adesão ao tratamento, especialmente em rotinas mais corridas.

Não existe uma única resposta sobre qual das duas é “melhor”. A escolha depende da resposta individual de cada paciente, da presença de outras condições de saúde, da rotina diária e da avaliação do médico responsável. É comum que o psiquiatra teste uma opção e, se necessário, ajuste para a outra, até encontrar o melhor equilíbrio entre eficácia e efeitos colaterais.

TDAH em adultos: o tratamento medicamentoso funciona da mesma forma?

Sim, embora o tema ainda gere alguma desconfiança, já que por muito tempo o TDAH foi visto como uma condição exclusiva da infância.

Estudos mostram que uma parcela significativa das crianças com TDAH mantém sintomas relevantes na vida adulta, ainda que a hiperatividade física costume dar lugar a uma inquietação mais interna, como dificuldade de concentração, desorganização e impulsividade em decisões do dia a dia.

Nos adultos, tanto o metilfenidato quanto a lisdexanfetamina seguem sendo opções eficazes, com perfil de resposta semelhante ao observado em crianças e adolescentes. A diferença está na atenção redobrada a fatores como pressão arterial, uso de outros medicamentos e presença de comorbidades, como ansiedade ou problemas cardiovasculares, que também merecem avaliação antes de iniciar o tratamento.

Por que esses medicamentos são controlados, com receita especial?

Metilfenidato e lisdexanfetamina estão classificados pela Anvisa como substâncias psicotrópicas sujeitas a controle especial. A dispensação em farmácias exige notificação de receita do tipo A, conhecida popularmente como “receita amarela”.

Esse controle existe porque ambos têm potencial de uso indevido, especialmente quando usados fora da indicação médica ou em doses superiores às recomendadas. A exigência de receita especial, com talão numerado e regras rígidas de retenção, é uma medida de segurança sanitária, e não um sinal de que o medicamento seja perigoso quando usado corretamente, sob acompanhamento médico.

É verdade que esses medicamentos “turbinam” o cérebro de quem não tem TDAH?

Esse é um dos mitos mais espalhados, especialmente entre estudantes em época de provas e profissionais buscando mais produtividade.

Em pessoas sem TDAH, o efeito desses medicamentos sobre a atenção não funciona da mesma forma benéfica observada em quem tem o transtorno. Como não existe, nesses casos, a disfunção de base que o medicamento corrige, o efeito tende a ser mais parecido com uma estimulação geral do sistema nervoso, sem o mesmo ganho real de organização mental.

Além disso, o uso sem indicação e sem acompanhamento médico aumenta o risco de efeitos colaterais, como insônia, aumento da frequência cardíaca, ansiedade e, em uso prolongado e inadequado, maior risco de dependência. O suposto “atalho” para produtividade costuma vir acompanhado de riscos reais à saúde, sem a mesma contrapartida de benefício vista no tratamento do TDAH propriamente dito.

Metilfenidato e lisdexanfetamina viciam?

A resposta correta exige alguma nuance, em vez de um simples sim ou não.

Os dois têm, sim, potencial de uso indevido e de dependência, o que justifica seu controle rigoroso pela Anvisa. Esse risco é maior quando o medicamento é usado sem prescrição, em doses superiores às recomendadas, ou por vias diferentes da indicada.

Quando usados corretamente, sob orientação médica, para tratar o TDAH diagnosticado, o risco de dependência é consideravelmente menor. Isso porque, em pessoas com o transtorno, o medicamento corrige um funcionamento cerebral já alterado, em vez de gerar uma sensação de estimulação artificial e prazerosa, que é o que costuma levar ao uso compulsivo.

metilfenidato e lisdexanfetamina
O potencial de abuso justifica a tarja preta.

Entre os dois, a lisdexanfetamina, por ser um pró-fármaco de ativação gradual, tende a ter menor potencial de abuso em comparação a formulações de ação mais rápida do metilfenidato. Isso acontece porque a ativação gradual evita o pico rápido de efeito que costuma estar associado a um maior potencial de uso compulsivo em outras substâncias estimulantes. Ainda assim, ambos exigem acompanhamento médico responsável ao longo de todo o tratamento, sem exceção.

Esses medicamentos deixam a criança “dopada” ou “zumbi”?

Esse é outro mito recorrente, especialmente entre pais que hesitam em iniciar o tratamento dos filhos.

Quando bem ajustada, a dose correta do medicamento não deveria deixar a criança sedada, apática ou “sem vida própria”. Pelo contrário, o objetivo do tratamento é justamente permitir que ela consiga se concentrar, controlar impulsos e participar mais plenamente das atividades do dia a dia.

Se uma criança apresenta sonolência excessiva, apatia marcante ou perda evidente de espontaneidade após iniciar o medicamento, isso costuma indicar que a dose ou a formulação precisam ser reavaliadas, não que esse seja um efeito esperado e aceitável do tratamento. É importante que pais e professores relatem essas observações ao médico, já que muitas vezes é na escola, e não em casa, que esse tipo de mudança fica mais evidente.

Metilfenidato e lisdexanfetamina são disponibilizados pelo SUS?

Vale a pena conferir na sua cidade ou no seu Estado. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS avaliou os dois medicamentos e recomendou, em diferentes análises, a não incorporação deles à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais.

A justificativa técnica citou qualidade de evidência considerada baixa nos estudos de longo prazo, além do alto impacto orçamentário estimado para o sistema público de saúde. Isso significa que, hoje, o acesso a esses medicamentos costuma depender de fatores locais.

Essa realidade pode mudar no futuro, conforme novas avaliações e estudos sejam conduzidos. Mas, no momento, é importante que famílias e pacientes estejam cientes dessa limitação ao planejar o tratamento, incluindo o custo mensal do medicamento como parte do planejamento financeiro do cuidado.

Vale destacar que essa decisão técnica não representa um posicionamento contrário ao uso do medicamento em si, nem questiona sua eficácia para quem tem indicação clínica correta. Ela reflete critérios específicos de custo-efetividade usados na análise de incorporação de tecnologias ao sistema público, que seguem parâmetros próprios, distintos da avaliação clínica individual feita pelo médico no consultório.

Quais os efeitos colaterais mais comuns?

Como qualquer medicamento, metilfenidato e lisdexanfetamina podem causar efeitos colaterais, que variam de pessoa para pessoa. Os mais frequentes incluem:

  • Redução do apetite, especialmente durante o período de ação do medicamento.
  • Dificuldade para dormir, principalmente quando a dose é tomada tarde no dia.
  • Dor de cabeça e boca seca.
  • Aumento discreto da frequência cardíaca e da pressão arterial.
  • Irritabilidade ou labilidade emocional em algumas pessoas, especialmente ao final do efeito do medicamento, fenômeno às vezes chamado de “efeito rebote”.

A maioria desses efeitos costuma ser leve e tende a diminuir com o ajuste da dose ou da formulação usada. Efeitos mais intensos ou persistentes merecem sempre uma conversa com o médico responsável, em vez de serem simplesmente tolerados por conta própria.

Em crianças, o acompanhamento de peso e crescimento costuma ser parte da rotina de consultas, já que a redução de apetite pode impactar esses parâmetros ao longo do tratamento prolongado. Esse acompanhamento é rotina, não motivo de alarme, mas reforça a importância do seguimento médico regular.

Esses medicamentos podem ser combinados com álcool ou outras substâncias?

O álcool não tem uma interação classicamente perigosa e imediata com metilfenidato ou lisdexanfetamina, mas a combinação não é recomendada.

O consumo de álcool pode mascarar os efeitos colaterais do estimulante, como aceleração dos batimentos cardíacos, dificultando a percepção de que algo não vai bem. Além disso, o próprio álcool já traz riscos à saúde por si só, que se somam aos do uso do medicamento.

A combinação com outros estimulantes, incluindo cafeína em excesso, energéticos ou substâncias ilícitas, também deve ser evitada. O acúmulo de estímulos sobre o sistema cardiovascular e nervoso aumenta consideravelmente o risco de efeitos colaterais graves, como arritmias e crises de ansiedade intensa, especialmente em pessoas com predisposição a esse tipo de problema.

Se você faz uso de álcool com regularidade e também usa metilfenidato ou lisdexanfetamina, vale conversar abertamente sobre isso com o psiquiatra responsável pelo acompanhamento, sem receio de julgamento.

Guardar e administrar o medicamento em casa: cuidados importantes

Por serem substâncias controladas, com potencial de uso indevido, alguns cuidados domésticos merecem atenção, especialmente quando há crianças ou adolescentes em tratamento.

Alguns pontos práticos incluem:

  • Guardar o medicamento em local seguro, fora do alcance de outras pessoas da casa, incluindo outros filhos ou visitantes.
  • Não compartilhar a medicação com amigos ou colegas, mesmo diante de pedidos bem-intencionados relacionados a estudos ou trabalho.
  • Seguir rigorosamente o horário e a dose prescritos, evitando ajustes por conta própria, mesmo em dias de maior ou menor necessidade percebida.
  • Comunicar ao médico qualquer sinal de uso fora do combinado, seja por esquecimento frequente, perda de comprimidos ou pedidos incomuns por doses extras.

Esses cuidados não são sinal de desconfiança em relação a quem faz o tratamento. São parte da responsabilidade que acompanha o uso de qualquer substância controlada, e ajudam a manter o tratamento seguro para todos os envolvidos.

Quando procurar um psiquiatra?

Vale buscar avaliação quando existe suspeita de TDAH, seja pela dificuldade persistente de atenção, impulsividade ou inquietação que atrapalha a vida escolar, profissional ou pessoal.

Também vale buscar orientação profissional se você, ou alguém da sua família, já usa esses medicamentos e tem dúvidas sobre dose, efeitos colaterais ou continuidade do tratamento. Ajustes ao longo do caminho são parte normal do acompanhamento, e não devem ser feitos por conta própria.


Dr. Marcos Augusto Kern — CRM-PR 45460

Ritalina® e Venvanse® são marcas registradas de seus respectivos laboratórios fabricantes.


Leia também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *